domingo, 21 de junho de 2009

A encenação de Na Solidão dos Campos de Algodão: entre acertos e desacertos

Interessante refletir e louvar, acima de tudo, o empenho dos alunos-diretores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro que promove, na escolha de autores contemporâneos para servir de base aos trabalhos de desenvolvimento em práticas de montagem, a possibilidade de discussão sobre modos de criação e realização de espetáculos que supram as necessidades atuais da linguagem cênica, e paralelo a estas transformações, uma crítica que procura estar atenta a estas novas formas de produção. O universo de Bernard-Marie Koltès invadiu o Palcão do CLA, no semestre passado, com a representação de Roberto Zucco, do aluno-diretor Roberto Souza, e agora, e em meio à escuridão avassaladora que tornava nosso jardim, até pouquíssimo tempo atrás, um espaço intransitável e lúgubre, está em cartaz, na sala Glauce Rocha, a encenação de Na Solidão dos Campos de Algodão, do aluno-diretor Alexandre Rudáh.

A montagem surge amparada por um blog, contendo em seu bojo, artigos sobre o encenador e sobre questões pertinentes ao entendimento da trama, elaborados pelos alunos-teóricos Alcemar Vieira, Daniela Amorim, Daniele Ávila, Marcio Freitas e Mariana Barcelos, além de depoimentos do diretor e dos demais alunos responsáveis: a cenografia de Bárbara Barbosa e Dolores Marques; o figurino de Regilan Deusamar; a iluminação de Luisa Paes e, finalmente, a música de Pedro Tie, cumprindo a função de articular todas as vozes participantes num corpus acadêmico bem estruturado, e principalmente, acessível, tanto para quem viu a peça, quanto, simplesmente, para quem tem interesse em aprofundar, de forma panorâmica, os conhecimentos sobre o dramaturgo francês. E foi consultando a página eletrônica da peça, que uma questão me chamou profundamente atenção.

Citando o aluno-diretor: “Minha formação artística foi pautada, desde o princípio, pela busca de uma expressão focada no corpo. Aos poucos fui percebendo que a palavra ficava presa na garganta e quando saia, não tinha o tratamento artístico necessário para compor, junto com o corpo, um todo harmonioso” (Rudáh: 2009). Vejamos: O registro vocal dos atores Carla Martins e Maelcio Moraes, ambos com característico sotaque nordestino, possuem o fôlego necessário para atender as necessidades de se falar um texto de longos e difíceis monólogos, como este de koltès, porém ficou aquém do nível sugerido pelas relações estabelecidas na ação dos personagens, pois a pulsão necessária que emerge da fala dos dois únicos protagonistas da trama, o Dealer e o Cliente, instaura nuances de arrogância e ambiguidade do desejo, enfraquecidos em cena por uma entonação mais lenta, não imprimindo uma força suficiente, do segundo personagem citado, que procura desestabilizar os argumentos do primeiro.

O autor estabelece na cena um ambiente de risco, onde a escuridão da noite é propícia às transações ilícitas. Não sabemos que lugar exatamente é aquele, porém, podemos supor, pelos enunciados das duas figuras, que, ali, paira no ar a sensação de total insegurança. Neste espaço ermo, o duelo verbal entre quem deseja e quem obtém o objeto do desejo é travado, sem que ambos cedam às pressões impostas pelos seus duplos: nem o Dealer apresenta o conteúdo de sua mercadoria, nem o Cliente nomeia o objeto do qual ele necessita. Mas o que torna este texto peculiar é que, em Na Solidão dos Campos de Algodão, o pensamento é levado às últimas consequências, e a necessidade que estes sujeitos têm de falar é flagrante, e eles falam muito. Cada representação da fala dos personagens é um imenso monólogo, possuidor de velocidade e ritmo próprios, que tem o poder de desestruturar toda fala antecedente. E aqui está o problema: a materialização vocal do Cliente de Maelcio não possui a força necessária para afrontar, replicar, humilhar o Dealer à altura, logo ele, que quer ignorar os acidentes do seu percurso e que despreza aqueles que atrapalham o seu caminho.

Devido a esta leitura, pressupõe-se que um tenha mais o domínio da situação que o outro, o que não é o caso. Ali, ambos possuem consciência de suas forças internas, devido à violência com que utilizam as palavras, devido ao modo como querem intimidar um ao outro, e isto teria que estar latente desde o inicio do espetáculo.

Mas, dentre os acertos do espetáculo, chamo atenção para dois elementos que preenchem o espaço de forma concreta, permitindo que o público capte toda atmosfera densa que paira naquele lugar indefinido: a cenografia, bem elaborada, feita de curvas e bifurcações que possibilita o desequilíbrio dos personagens, e a música, necessária para criação de zonas obscuras e sensações, penetrando em nosso espírito o medo que é estar ali, partilhando a companhia daqueles sujeitos.
Com todos os senões feitos à determinados elementos da representação, acredito que o tempo em cartaz possa ser pontual para verificações e possíveis acertos. Todavia, o mais importante, em se tratando de uma montagem universitária, que sofre, como todas sofreram, com atrasos de verbas e outras pendências que bem conhecemos, o mais importante é que todos vejam esta montagem e absorvam todo fluxo poético contido nas falas destas criaturas insanas e que desejam intensamente.
A encenação deste texto de Koltès fica em cartaz até o dia 12/07, na UNIRIO.
Referência Bibliográfica
RUDÁH, Alexandre. A encenação: primeira impressões. http://olhardocachorro.wordpress.com/sobre/, acessado em 21/06/2009.

2 comentários:

  1. Sou suspeita para falar que adorei a crítica, não? (risos)

    Dolores Marques

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  2. muito pertinente a crítica...
    o texto é maravilhoso, mas é um texto difícil mesmo para se fazer essa abordagem textocêntrica...

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