segunda-feira, 22 de junho de 2009

“Pessoas” e Pessoa

Fernando Pessoa é o autor da montagem mais recente da companhia “Atores de Laura”. O espetáculo “Pessoas”, dirigido por Susanna Kruger, leva ao palco do Teatro Sérgio Porto quatro dos dramas estáticos do escritor luso: “O Marinheiro”, “Diálogo no Jardim do Palácio”, “Salomé” e a “A Morte do Príncipe”. As quatro peças são adaptadas e transformadas em monólogos, representadas por quatro atores. A encenação propõe uma instalação cênica dos quatro textos, é um circuito pelo qual todos os atores atravessam: são quatro pontos no espaço, um em cada canto da sala, onde as quatro cenas são interpretadas simultaneamente pelos atores. Ao final de cada monólogo, os atores se despem e caminham para o próximo cenário,onde colocarão outro figurino e interpretarão um outro personagem. A conclusão do espetáculo se dá quando todos os atores passarem por todas as peças, voltando ao ponto original. Ao entrar no teatro o público recebe junto com o programa um marcador de livros que contém uma espécie de instrução para auxiliar na experiência cênica. A proposta implica na autonomia do indivíduo, cada um pode ver a peça que quiser, há infinitas possibilidades: assistir a mesma cena pelos quatros atores, acompanhar o mesmo ator em cada cena, ver diferentes atores em diferentes cenas, ou se colocar no meio e ouvir tudo ao mesmo tempo, são alguns dos possíveis caminhos.
O Teatro Estático de Pessoa acredita na “revelação de almas sem a ação”, num espaço onde pode se explorar e talvez revelar a alma humana através das palavras pronunciadas por atores, e não por uma ação, um conflito exterior ou “perfeito enredo”. A direção de Susanna Kruger busca imprimir e evocar o Teatro Estático de Fernando Pessoa. A interpretação dos atores é minimalista, dotada de poucas ou quase nenhuma ação física. É evidente a diferença dos caminhos escolhidos por cada ator para cada cena, podemos ver quatro “Salomés” completamente distintas em cada rodada do circuito. Podemos ver como cada ator se relaciona em sua particularidade com o que está dizendo. Vemos os múltiplos sentidos das palavras de Pessoa, na boca e alma dos atores e pessoas, Luiz André Alvim, Verônica Reis, Márcio Fonseca e Adriana Schneider.
A encenação é ousada, afinal ouvir e interpretar apenas um texto de Pessoa já é difícil. “Pessoas” leva a cena quatro peças apresentadas simultaneamente, o que produz uma espécie de costura musical, onde palavras ora se misturam, ora se interrompem. A musicalidade é interessante, mas impossibilita em vários momentos a compreensão da cena, levando a um afastamento afetivo do público.
Os cenários e figurinos de Ronald Teixeira e Leobruno Gama, são adequados à proposta cênica, conferem uma simplicidade a cena. Os figurinos têm um melhor resultado em relação ao cenário, que parece ainda não estar pronto. Há uma visível diferença de elaboração e acabamento de uma cena para outra, o cenário do “Marinheiro”, por exemplo, composto por um pano no chão, com um vestido fazendo uma alusão à um corpo, uma cadeira, e um único peixe estranhamente pendurado no fundo, contrasta gravemente com o cenário de “Salomé”, repleto de caixas, objetos, entre eles, garrafa com vinho, tigela com água, e até uma massa de pão, todos utilizados pelos atores durante a cena.
“Pessoas” não é a melhor é a peça do “Atores de Laura”, mas é uma importante encenação do grupo. A companhia conhecida por montagens com grande número de atores em cena, direção marcada, e uma estética plástica forte, dá lugar para uma encenação mais sutil, simples e ao mesmo tempo extremamente complexa e audaciosa.

POSTANDO PARA DIANA HERZOG

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